domingo, 30 de junho de 2013

Comparativo: obras na Alemanha e no Brasil


Tive algumas oportunidades de visitar obras rodoviárias na Alemanha, país conhecido por ter rodovias entre as melhores do mundo. Em algumas delas, as famosas Autobahn, em determinados trechos não há limite de velocidade e é comum ver carros esportivos “passeando” a 300 km/h. O projeto em certos locais foi feito em linha reta, com três ou quatro faixas em cada pista, onde é permitida tal velocidade. O pavimento não apresenta nenhuma imperfeição e há barreiras de segurança em toda a sua extensão. E claro, os carros alemães também são os melhores do mundo.
Alguns cuidados tomados durante a etapa de execução das obras não são difíceis de serem implementadas em um país como o Brasil. Se um dia tivemos a capacidade técnica de executar obras do porte da Usina Hidrelétrica de Itaipú e da Ponte Rio-Niterói, podemos também construir rodovias de qualidade.
Em agosto de 2011 visitei uma obra de restauração rodoviária próxima a cidade de Ludwigshafen. Um local de tráfego intenso e pesado, cujo projeto de manutenção previa a fresagem do pavimento em poucos centímetros com aplicação de uma nova camada asfáltica. Diversos pequenos detalhes me chamaram a atenção, os quais estão detalhados um a um abaixo:

1)      Alimentador de Asfalto: um equipamento bastante importante para uma pavimentação de qualidade em obras rodoviárias de maior porte, como uma duplicação de rodovia. O alimentador recebe o concreto asfáltico descarregado pelo caminhão e o transfere para a vibroacabadora de asfalto. As principais funções do alimentador é manter uma constante alimentação do asfalto e evitar choques do caminhão com a vibroacabadora, estes que acabam danificando equipamento e provocando erros de execução na pavimentação.  Um silo de maior capacidade pode receber toda a descarga de um caminhão. Já a vibroacabadora não possui espaço físico para tal, assim o caminhão acaba basculhando aos poucos o material para a máquina. No Brasil ainda não há a utilização deste equipamento e é muito comum falhas de execução em função de choques de caminhão com a vibroacabadora.

 
 
 

2)     A aplicação do asfalto utilizava sistema de nivelamento eletrônico por sensor ultrassônico. Este tipo de nivelamento é bastante simples e já é utilizado no Brasil em muitas obras. A pista a ser pavimentada deve ter como referência a faixa já existente. Assim, no painel do sistema de nivelamento, é selecionado o caimento ou a porcentagem de inclinação que a mesa compactadora deve seguir durante a pavimentação. O sensor ultrassônico apresenta como vantagem em relação aos sistemas de nivelamento mecânico por esqui o fato de não sofrer atritos, assim possui maior vida útil.
 
 
 
 
3) A qualidade e o ótimo acabamento após a aplicação na pista é claro e visível.
 
 

4)      Na compactação asfáltica, os operadores dos rolos mudavam de faixa na parte quente (próximo a vibroacabadora de asfalto) deixando marcas no asfalto. O correto é trocar de faixa o quanto mais distante da vibroacabadora. Mas não é um erro tão grave e na sequência os riscos já eram “apagados” com as passadas paralelas dos compactadores.
 
 

5)      Bastante interessante os cuidados em relação aos bueiros da rodovia. Estes eram sinalizados antes da aplicação do asfalto. Colocava-se uma tampa metálica sobre o bueiro e após a pavimentação era feita a retirada da tampa e a limpeza.
 
 
 
 

6)      Os tradicionais rasteleiros existem até na Alemanha. Mas em menor número. Com o uso do sistema de nivelamento, praticamente não há material sendo despejado além do limite da largura pavimentada.
 
 

7)      Durante o trabalho de recuperação do pavimento, foram posicionadas faixas de sinalização temporárias. Uma simples fita que após os trabalhos é facilmente removida. Enquanto que no Brasil costuma-se pintar faixas temporárias, que depois são mal apagadas, resultando em um serviço “porco” e mal feito. Muito mais simples aplicar estes tipos de fita, não?!
 
 
 
 

8)      O cuidado em relação a segurança também é grande. Todos os funcionários e visitantes precisam vestir um colete de sinalização. O funcionário responsável pela aplicação no trecho, uma espécie de encarregado, orienta que não devemos caminhar por fora da área circulada e que a travessia da pista deve ser feita em fila indiana, pessoa por pessoa. É passada também a ordem de nunca nos atravessarmos em frente aos rolos compactadores, ficando permitido apenas a aproximação lateral. Os carros das empresas que trabalham no trecho também são identificados com imãs reflexivos removíveis.
 
9)      Pra finalizar, outro detalhe técnico me chamou a atenção. Estacionamos o carro em uma pequena ruela que terminava em uma via secundária de acesso a rodovia principal. Mesmo sendo um caminho de baixíssimo tráfego, de acesso a uma área rural, havia asfaltamento. No entanto, a composição de agregados na mistura é de seixo rolado. Pedras arredondadas encontradas em rios, e que não são recomendadas para a utilização em pavimentação asfáltica por não terem cantos quebradiços que favorecem a aglutinação da mistura. Porém, por se tratar de uma ruela em um local sem tráfego, tornou-se uma solução mais barata para a aplicação do asfalto. O processo de britagem de agregados envolve custos, e utilizar um material proveniente da natureza é obviamente mais econômico. Por ser uma via sem previsão de tráfego pesado e intenso, tornou-se uma solução barata para dar fim ao barro.
 
 
 
 
 

 
 
 

 

 
 
 
 

 

 
 
 

 
 

15 comentários:

  1. Boas considerações e curiosidades

    Oswaldo Machado

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  2. Boa tarde Juliano! Seu blog é show de bola! Temos uma pequena pavimentadora aqui em São Paulo, me interesso muito pelo assunto!

    Abs,
    Francisco

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  3. Olá Francisco, obrigado pelas considerações. Pavimentação e construção de rodovias é um assunto realmente apaixonante, uma pena que aqui no Brasil nós ainda estamos tão atrasados. Mas faz parte do nosso trabalho tentar mudar esse cenário.

    Mesmo com a correria do dia a dia, vou atualizar o Blog até a próxima semana.

    Abraço

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  4. Bom dia, Juliano.

    Sou engenheiro civil recém-formado e me identifico bastante com a pavimentação asfáltica, tendo inclusive feito meu TCC sobre asfalto-borracha, você tem conhecimento também sobre esta técnica? Atualmente estou entrando no ramo como eng.º orçamentista, mas pretendo chegar à obra. Seu blog é bastante esclarecedor e reforça meu conhecimento e interesse sobre o tema. Pretendo visitar mais vezes.

    Abraços.

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    1. Olá Renan. O asfalto-borracha é muito interessante pois agrega qualidade e ao mesmo tempo minimiza um problema ambiental que é o descarte de pneus velhos. Já estive em obras com aplicação do asfalto-borracha, em breve postarei aqui no Blog. Abraço

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    2. Boa tarde, Renan Medeiros.

      Me identifiquei muito. Estou no meu último semestre de engenharia civil e estou fazendo meu TCC sobre asfalto-borracha também! Se puder, entre em contato comigo: brenomnguedes17@gmail.com

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  5. Olá...concordo contigo quando diz que a Alemanha é exemplo em obras de rodovias. Contudo, pelo que comenta no decorrer do artigo, não fica identificado em que ponto somos falhos aqui no Brasil. Longe de justificar as obras mal feitas, mas precisamos identificar o porque nosso asfalto não é tão bom quanto o deles. Primeiro: quando falamos em pavimentação no Brasil, lembramos somente do revestimento asfáltico, "esquecendo" a base, controle de solos, controle de agregados, qualidade do CAP, em fim... quando se fala em pavimentação em alguns países de ponta, pensam primeiro na base que suportará a rodovia, no melhoramento das condições do solo...
    As técnicas construtivas utilizadas no mundo (salvo algumas particularidades - sinalização, uso de equipamentos de segurança) são basicamente as mesmas: produção da mistura, distribuição com vibroacabadora, compactação com rolo de pneus e rolo chapa.

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    1. Olá. Embora eu não tenha abordado neste comparativo de obras Brasil x Alemanha a etapa de terraplenagem e compactação de solos, eu escrevi já uns dois ou três tópicos sobre este assunto. Concordo que é importantíssimo para a qualidade da rodovia executar com qualidadedesde as camadas abaixo.

      As técnicas construtivas são muito parecidas em todo o mundo. O processo é praticamente o mesmo. No entanto, o Brasil tem deixado muito a desejar na qualidade por um somatório de erros desde o projeto (com falhas e omissões), passando pelo processo de usinagem do asfalto (em usinas velhas, drum-mixers que oxidam o ligante asfáltico e não misturam bem os insumos) e aplicação na pista (falhas básicas com as vibroacabadoras e compactação com os rolos).

      Espero que através das minhas postagens no blog eu esteja ajudando a melhorar, mesmo que de uma forma pequena e isolada. E conto com a ajuda de vocês, com sugestão de tópicos e assuntos para explorar.

      Abraço

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  6. é preciso esclarecer o seguinte: O Asfalto nos países desenvolvidos é oferecido pelo governo ou é privatizado?

    eu não espero nenhum serviço que preste vindo do governo e sabem porque? os políticos não estão interessados em asfalto de qualidade. Como eles ficam no cargo somente 4 anos (com sorte se reelegem), eles oferecem o serviço mais porco possível aos cidadãos. E já não estou falando apenas de asfalto.

    já empresas privadas não. Elas fazem asfalto de boa qualidade e duráveis por anos. Porque trata-se de um investimento a longo prazo. Depois de fazer um ótimo e durável asfalto, ela apenas recolhe os frutos do trabalho através de taxas dos cidadãos.

    temos que privatizar tudo aqui no Brasil. Somente assim os serviços irão melhorar!

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  7. é preciso esclarecer o seguinte: O Asfalto nos países desenvolvidos é oferecido pelo governo ou é privatizado?

    eu não espero nenhum serviço que preste vindo do governo e sabem porque? os políticos não estão interessados em asfalto de qualidade. Como eles ficam no cargo somente 4 anos (com sorte se reelegem), eles oferecem o serviço mais porco possível aos cidadãos. E já não estou falando apenas de asfalto.

    já empresas privadas não. Elas fazem asfalto de boa qualidade e duráveis por anos. Porque trata-se de um investimento a longo prazo. Depois de fazer um ótimo e durável asfalto, ela apenas recolhe os frutos do trabalho através de taxas dos cidadãos.

    temos que privatizar tudo aqui no Brasil. Somente assim os serviços irão melhorar!

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    1. Olá John,

      Em alguns países europeus as rodovias são privatizadas e os usuários pagam pedágios. Somente em alguns poucos países como a Alemanha que as estradas são administradas pelo governo e apresentam altíssima qualidade de construção.

      A nossa realidade cultural no Brasil nos força a ir pro lado da privatização. O último mau exemplo de gestão pública em rodovias foi a criação da EGR - Empresa Gaúcha de Rodovias - pelo então governador Tarso Genro há uns 2 ou 3 anos. Alguns contratos com empresas privadas terminaram e decidiram criar uma estatal estadual para administrar as rodovias. Resultado: as rodovias se degradaram em velocidade espantosa, e as "técnicas" de restauração e manutenção beiravam o ridículo. Basta digitar no Google e ver a maravilha que é essa EGR, rsrs

      As empresas privadas são obrigadas a executar uma estrutura de rodovia com qualidade, pois a obrigação com as futuras manutenções será dela própria. No longo prazo, o custo-benefício de construir com qualidade compensa... e muito.

      Já em pavimentação urbana, os políticos e prefeitos que se esforçarem pra fazer um pouco melhor já ganhariam muitos votos. Em Porto Alegre o asfalto não tem durado 1 ano em muitas avenidas, e as principais vias da cidade estão um verdadeiro queijo-suíço.

      Abraços

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  8. Aqui em Blumenau realizam EXATAMENTE o mesmo procedimento, e quando eu digo EXATAMENTE só não me refiro aos faixas coladas, o resto é IGUAL, maquinas procedimento até a tamba do bueiro com a chapa de aço.

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    1. Acredito que em Blumenau apenas não tenha o alimentador de asfalto em frente a pavimentadora, hehehe. Em alguns lugares do Brasil executam a pavimentação com qualidade. Na cidade dos meus avós paternos, Joaçaba-SC, eu estive em dezembro e me surpreendi com a qualidade da pavimentação que foi feita recentemente. Muito melhor que Porto Alegre, rsrs

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  9. Olá, tudo bem ?

    Sou estudante de engenharia civil e sou estagiário em uma empresa que trabalha com recomposição de asfalto.

    Temos problemas com sinalização, pois em grande partes dos locais a CET as vezes retira a sinalização das vias e quando isso acontece, sinalizamos com tinta o local, isso acaba não sendo viável, pois quando serviço, não removemos a pintura.

    Me interessei por está fita, vi que ela é colocada diretamente da via, assim se tornando uma boa sinalização, e ao termino da para remover.

    Gostaria de saber as referências desta fita, e se no Brasil encontramos a mesma.

    Atenciosamente, Anderson Ricardo.

    Email. andersonrbs72@gmail.com

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    1. Olá Anderson.

      Estas fitas eu só vi fora do Brasil. Não encontrei este produto por aqui.

      Vou tentar descobrir o fornecedor e ver se há algum representante no país que comercializa.

      Realmente é uma solução muito melhor do que as pinturas temporárias que depois são mal removidas (quando são).

      Abraço

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