Tecnologias, equipamentos, técnicas e boas práticas de pavimentação asfáltica. Informações sobre construção, manutenção e recuperação de rodovias e vias urbanas.
Já foi publicado
aqui no blog em dezembro de 2023 a respeito da reciclagem profunda in-situ com adição de emulsão asfáltica.
Conhecida também como FDR (do inglês Full
Depth Reclamation), esta técnica está em total ascensão no Brasil desde a
publicação.
Tive a oportunidade profissional
de participar de diversos projetos nos últimos 3 anos no Brasil em diversas concessionárias
de rodovias, assim como acompanhar o processo de elaboração e divulgação da
norma técnica DNIT 463/2025 – ES “Reciclagem de Pavimento Asfáltico in situ com
Emulsão Asfáltica”. Com a norma publicada, a solução deve ser adotada cada vez
mais pelos órgãos públicos (DNIT e DERs estaduais).
Na figura abaixo uma
ilustração dos benefícios da técnica, ressaltando que os pavimentos de muitas
rodovias brasileiras estão em estado de colapso estrutural ou próximos deste
patamar:
No vídeo a
seguir um exemplo de execução em uma obra realizada em Minas Gerais. Com uma velocidade
em torno de 6 metros/minuto (média de diversas obras) considerando
profundidades entre 20 cm e 25 cm, esta fantástica técnica permite a
recuperação estrutural de mais de 1 quilômetro de faixa por dia.
Nas próximas
publicações vou compartilhar informações técnicas das principais obras
realizadas no Brasil em rodovias de alto tráfego, tais como a Fernão Dias
(BR-381), a BR-386 no Rio Grande do Sul, BR-282 em Santa Catarina, entre outras.
Antes de compartilhar alguns exemplos, segue um resumo de todos os benefícios
técnicos, financeiros e ambientais da técnica.
O Brasil tem
pouco mais de 12% de sua malha viária pavimentada, o que representa aproximadamente
213.000 quilômetros, sendo que mais da metade destas rodovias estão em estado
regular, ruim ou péssimo (fonte: pesquisa CNT – Confederação Nacional dos
Transportes, 2024). Nesta mesma pesquisa ainda são apresentados dados a
respeito da baixa densidade da malha pavimentada do país (25,1 km/mil km²)
enquanto países como China e Estados Unidos apresentam números muito superiores
(447 e 437,8 km/mil km² respectivamente). Nossos vizinhos da América do Sul
também estão a nossa frente tais como Uruguai (43,9), Argentina (42,3) e até
mesmo o Equador (31,4). Estamos a frente apenas do Paraguai (21,1) e da
montanhosa Bolívia (8,9). Ou seja, a carência de infraestrutura no Brasil ainda
é gigantesca para um país de dimensões continentais e atualmente a oitava
economia do mundo.
Os dados
mostram que ainda há muito a ser feito na infraestrutura do país, especialmente
para diminuir o grande percentual de rodovias não-pavimentadas e aumentar a
densidade da malha pavimentada. Ou seja, é preciso adotar técnicas de
preservação de pavimentos para que não haja um aumento na degradação que venha
a gerar maiores danos e assim maiores custos para reparos e manutenção
corretiva, atrapalhando também a expansão da malha pavimentada. Hoje grande
parte dos problemas existentes nas
rodovias brasileiras são ocasionadas pela falta de manutenção adequada e aumento substancial das cargas
aplicadas pelo tráfego pesado, cuja solução para resolver este problema
estrutural de forma rápida e econômica pode ser a reciclagem profunda com emulsão asfáltica.
A nível
mundial a técnica mais utilizada para manutenção preventiva e preservação de
pavimentos é o microrrevestimento asfáltico à frio, conhecido também pela sigla MRAF. Pela forma rápida e fácil de
aplicação, utilizando uma usina móvel acoplada a um caminhão, promovendo a
mistura de agregados, emulsão asfáltica modificada por polímero e aditivos,
dosando e aplicando em tempo real. No Brasil é bastante utilizado especialmente
pelas concessionárias de rodovias, porém a nível de obras públicas o percentual
utilizado ainda é muito menor quando comparado com as rodovias privadas. Abaixo,
um vídeo da empresa Asfaltopav mostrando como é executado o MRAF:
Podemos
selecionar 10 razões técnicas para que o microrrevestimento asfáltico
à frio seja mais utilizado e difundido no Brasil:
1.AUMENTO DA VIDA ÚTIL DO PAVIMENTO
O pavimento asfáltico pode ter sua vida útil prolongada entre 4 e 8
anos, dependendo de outras variáveis tais como condições das camadas de base,
volume de tráfego (se não ocorrer um aumento significativo de acordo com o
projeto inicial de dimensionamento), ou surgimento de trincas de maior tamanho,
etc. Para pequenas fissuras a técnica serve para preencher os espaços,
retardando a propagação das mesmas. Embora não tenha função estrutural, o MRAF
suporta muito bem os esforços aplicados pelo tráfego pesado nas principais
rodovias do Brasil, protegendo a estrutura do pavimento.
MRAF aplicado em duas faixas, do lado esquerdo com a emulsão
já rompida e do lado direio com a emulsão ainda em processo de rompimento.
2.MELHORIAS TÉCNICAS NAS CONDIÇÕES FUNCIONAIS
Pequenas irregularidades ou pavimentos em condições de desgaste
superficial com baixo atrito (asfalto muito liso) ou excesso de ruído (alta
rugosidade) podem ser tratados com a aplicação de uma simples camada de MRAF. Alguns
pavimentos com problemas podem ter uma restauração de suas características
funcionais, melhorando o conforto e segurança do rolamento.
O MRAF apresenta melhores condições de rolamento e de ruído em relação
aos tratamentos superficiais do tipo TSS (Tratamento Superficial Simples) e TSD
(Tratamento Superficial Duplo), até pela forma de aplicação que garante uma
mistura homogênea enquanto os tratamentos são dependentes do espargimento, sendo
assim mais suscetível a ocorrer algum desajuste no processo tais como
entupimento de bicos, além de não cobrir totalmente os agregados pois os mesmos
são espalhados sobre o pavimento antes da aplicação da emulsão asfáltica. Sobre
a forma de aplicação de ambas as técnicas, os detalhes já foram postados aqui
no Blog em um artigo de 2018.
Execução do MRAF ocorre de forma rápida e precisa.
3.REDUÇÃO DE CUSTOS DE MANUTENÇÃO
As camadas de CBUQ (concreto betuminoso usinado à quente) sofrem um
lento processo de oxidação e envelhecimento, sendo necessário que um dia essa
camada seja removida através da fresagem asfáltica e a colocação de uma nova
camada após o fim da vida útil da camada de rolamento. Ou seja, uma nova
mistura de CBUQ precisará ser usinada, transportada, aplicada e compactada.
O uso do MRAF é muito mais barato do que o processo de fresagem e
reconstrução, portanto ao longo dos ciclos de manutenções pode representar
reduções de custo bastante significativos. As fotos abaixo mostram dois
momentos: após a aplicação de uma faixa do microrrevestimento asfáltico e a
segunda foto a condição do pavimento após a finalização da obra, apresentando uma
rodovia com o pavimento revitalizado.
Aplicação de uma camada de MRAF com a emulsão ainda na
coloração marrom antes do rompimento, quando ocorre a separação da fase
asfáltica da fase aquosa após evaporação ou absorção da água pelos agregados.
MRAF após o rompimento (faixa do lado direito) com uma coloração
mais escura.
Pavimento em excelente condição após a aplicação de MRAF e
sinalização.
4.DIMINUIÇÃO NO USO DE MATÉRIA-PRIMA
Na mesma comparação com a técnica de remoção da camada asfáltica
degradada através da fresagem e da usinagem a aplicação de uma nova camada,
ocorre uma grande diminuição no uso de matéria-prima virgem que consiste em
agregados minerais e cimento asfáltico de petróleo (CAP). A economia é de pelo
menos 30%, dependendo da profundidade de fresagem e espessura da nova camada a
ser construída o número pode ser ainda maior. Em regiões com carência de
fornecimento de insumos pode ser bastante significativo essa diferença.
MRAF cerca de 2 horas após a aplicação.
5.EXECUÇÃO ÁGIL E RÁPIDO RETORNO DO TRÁFEGO
A aplicação do MRAF é feita de forma rápida utilizando um equipamento conhecido
como Usina de Micropavimento, acoplado a um caminhão que se locomove ao mesmo
tempo que o equipamento executa a dosagem e mistura dos agregados com a emulsão
asfáltica do tipo RC (ruptura controlada) com aplicação simultânea sobre o
pavimento através de uma mesa acabadora.
O retorno do tráfego pode ocorrer em até 2 horas, podendo chegar a
apenas 1 hora de liberação com o uso de aditivos especiais que podem ser
adicionados na emulsão asfáltica.
Aplicação do MRAF com a utilização de usina móvel apropriada.
6.IMPERMEABILIZAÇÃO DO PAVIMENTO.
A aplicação do MRAF permite a impermeabilização da estrutura do
pavimento, prevenindo a ação da água que pode causar um grande dano ao penetrar
por trincas e fissuras existentes. Junto da ação da carga aplicada pelo tráfego
pesado ocorre uma combinação resultando em um efeito erosivo da parte inferior
para a parte superior do pavimento, com bombeamento de finos e perda gradativa
da capacidade estrutural, levando a estrutura gradativamente até uma situação
de colapso.
Condição do MRAF logo após a sua aplicação.
7.APLICAÇÃO EM TEMPERATURA AMBIENTE.
O uso da emulsão asfáltica é a maneira de aplicar em temperatura
ambiente um produto asfáltico para produzir uma mistura consistente. A química
presente se dá através de agentes emulsificantes (surfactantes ou tensoativos)
que permite a dispersão do asfalto na água e a posterior ruptura da emulsão,
quando o asfalto se separa da fase líquida e adere ao agregado mineral ou à
superfície onde foi aplicada. Em termos simples, é quando a emulsão “seca” e o
asfalto volta a agir como um ligante sólido, passando de uma coloração marrom
para uma cor mais escura. Este processo é essencial para que a mistura ganhe
resistência mecânica e durabilidade.
O uso da emulsão asfáltica no MRAF permite que a aplicação ocorra em
temperatura ambiente, sem aquecimento do produto asfáltico, reduzindo as
emissões de CO2 de forma significativa. Além do menor impacto ambiental, a
técnica garante mais segurança e salubridade para os trabalhadores e boa
trabalhabilidade em climas úmidos.
MRAF aplicado em temperatura ambiente, sem necessidade de
aquecimento do ligante asfáltico.
8.FACILITA FUTURAS INTERVENÇÕES DE MANUTENÇÃO.
O emprego do MRAF permite que as intervenções técnicas sejam otimizadas
de modo a aumentar a vida útil do pavimento de forma econômica e de rápida
execução. Em combinação com a técnica da microfresagem asfáltica, a camada
delgada do MRAF pode ser facilmente removida, sem necessidade de remover a
camada de CBUQ abaixo caso a mesma se encontre em boas condições. Se a camada
de MRAF não apresentar desgastes significativos, uma segunda camada pode ser
aplicada acima sem necessidade de remoção.
A microfresagem asfáltica é uma técnica que utiliza tambores de corte
nas fresadoras com maior número de ferramentas de corte (bits) e uma
profundidade bastante rasa, geralmente de apenas 10 mm. Assim é possível
realizar a substituição de camadas delgadas de forma rápida e ágil. Nas fotos abaixo (fonte: João Francisco
Canevari Júnior, empresa Asfaltopav) podemos observar como fica o pavimento
após a intervenção de microfresagem.
A microfresagem de camada asfáltica é uma leve raspagem do
pavimento com o uso de um tambor de corte com maior número de ferramentas e
menor espaçamento entre as linhas de corte.
Aplicação de MRAF logo após a microfresagem do pavimento
existente.
9.APRIMORAMENTO DO SISTEMA DE GERENCIAMENTO
DE PAVIMENTOS
A técnica permite uma adequação do Sistema de Gerenciamento de
Pavimentos (SGP) à realidade de campo com macro análise focada no ciclo de vida
de longo prazo. Conforme já mencionado, o MRAF pode ser aplicado de forma
sucessiva caso não apresente desgastes significativos. Caso apresente desgastes
ou algum tipo de defeito, pode ser removido através da microfresagem. Se a
camada asfáltica abaixo não apresentar algum tipo de problema, as manutenções
ocorrem apenas na parte superficial. Se a estrutura se mantiver intacta, as
manutenções se concentram apenas nas camadas asfálticas.
Sem o uso do MRAF, a alternativa para manutenção de pavimento asfáltico
se limitaria na sua remoção através da fresagem asfáltica assim que a camada
asfáltica alcançar o fim de sua vida útil. A presença do MRAF agrega uma
proteção para a camada asfáltica de modo a retardar o seu envelhecimento
natural, que ocorre também em função da exposição à radiação solar e as
variações de temperatura.
Imagem aérea da execução do MRAF divulgado pela empresa
Garcia Monteiro.
10.REAPROVEITAMENTO DO RAP
Um tema muito debatido no campo técnico e acadêmico da pavimentação é o
reaproveitamento do material asfáltico reciclado, o RAP (Reclaimed Asphalt Pavement), popularmente chamado no Brasil de
material fresado. Se discute muito o reaproveitamento de RAP em usinas de asfalto assim como em misturas asfálticas à frio tais
como PMF, etc. Assim como nestas outras técnicas de pavimentação, o uso do RAP
pode ser também perfeitamente empregado na aplicação de MRAF. Já tivemos no
Brasil diversas experiências, reduzindo o uso de agregados virgens e assim
dando destinação a volumes de RAP que estavam sem o devido reuso.
Os imensos depósitos de RAP que se acumulam em todo o Brasil podem ter
parte de seu estoque direcionado também para o uso em MRAF, com o devido
peneiramento, destorroamento e separação granulométrica específica.
O uso do RAP no MRAF já é uma realidade em diversos
projetos, tais como este divulgado pela empresa Garcia Monteiro, onde foi
utilizado 70% de RAP.
Ainda há
espaço para melhorias técnicas no uso do microrrevestimento asfáltico no
Brasil. A técnica encontra algumas objeções em função de projetos mal elaborados
ou mal executados. No entanto mesmo obras bem executadas podem ser aprimoradas
tecnicamente através dos seguintes pontos:
·Aplicação em trechos contínuos representam uma
grande redução no custo por metro quadrado em relação a aplicações em trechos
segmentados e descontínuos, o que ainda é muito realizado no Brasil mesmo por
concessionárias privadas de rodovias;
·Curva granulométrica pode ser aprimorada com o
afinamento da curva, melhorando a macrotextura superficial e reduzindo o ruído gerado
pela passagem do tráfego;
·A utilização de agregados de boa qualidade, com
menos presença de argilas e outros tipos de contaminações;
·Uso de emulsão asfáltica customizada em
condições especiais tais como aplicações noturnas, clima mais frio, agregados
mais reativos e planos de aplicação com menores janelas de trabalho;
·Aprimorar o controle de ruptura usando aditivos
específicos, não dependendo totalmente do clima e do uso excessivo de água,
como ocorre em boa parte das obras pelo Brasil.
Para quem deseja se aprofundar
mais sobre o MRAF, o vídeo abaixo publicado pelo IPOS Especialização apresenta
valiosas informações com a participação da empresa Garcia Monteiro, uma das
mais especializadas no Brasil nesta aplicação:
A convite do IPÓS Especialização participei de um Podcast "Usinas de Asfalto - Operação e Controle Tecnológico", juntamente com o Luiz Henrique Teixeira, Gerente Técnico da CBB Asfaltos. Trouxemos a experiência da indústria de equipamentos e da indústria química de produtos asfálticos, compartilhando informações importantes.
Abordamos diversos temas relacionados com as usinas, misturas asfálticas, cuidados básicos na produção do concreto asfáltico, reutilização de material fresado (RAP), asfalto morno, entre outros assuntos. Segue abaixo o link para assistir ao Podcast, com aproximadamente 1 hora e 50 minutos de duração:
O nosso pequeno
vizinho ao Sul do Brasil é um ótimo exemplo de que uma pavimentação de
qualidade pode ser alcançada. Algumas boas práticas, cuidados básicos e
principalmente treinamento das equipes permitem que a excelência nas obras de
pavimentação asfáltica seja alcançada. O Uruguai conseguiu atingir um padrão de
qualidade que o Brasil ainda não alcançou, mesmo em obras consideradas de
qualidade em nosso país ainda ocorrem erros básicos na execução.
Em minha recente visita a
obra no país vizinho em novembro de 2024 selecionei uma série de fotos para
explicar como que eles conseguem executar obras de qualidade, enquanto no
Brasil ainda seguimos cometendo uma série de erros básicos que comprometem a
qualidade e reduzem a vida útil de nossas obras de pavimentação asfáltica.
Transição para as misturas asfálticas mornas
Como já ocorre em países
desenvolvidos, o Uruguai já iniciou uma transição das misturas asfálticas à
quente (HMA – Hot Mix Asphalt) para
as misturas asfálticas mornas (WMA – Warm
Mix Asphalt). Já temos uma postagem sobre todos os benefícios técnicos,
financeiros e ambientais das misturas mornas aqui no Blog, assim como a
facilidade do seu uso.
Na obra que visitamos o
objetivo era diminuir a temperatura de produção do concreto asfáltico de 160°C
para 130°C, no entanto foi possível chegar a 120°C. A temperatura mínima que é
possível alcançar depende da usina de asfalto, do tipo de agregado, do cimento
asfáltico, da umidade local, entre outras variáveis. Nesta usinagem, as
emissões de VOC (compostos orgânicos voláteis) apresentaram uma redução de mais
de 80% em relação à mistura convencional à quente em 160°C.
Produção de concreto asfáltico em temperatura morna
praticamente sem emissões visíveis de fumaça tóxica e particulados.
Descarga do concreto asfáltico ao caminhão sem sinais visíveis de emissão de poluentes.
Controle de temperatura através de termômetro de ponteiro.
Registro de temperatura de 123°C. O mínimo alcançado nesta obra foi 120°C, utilizando aditivo surfactante em baixa dosagem (0,4% por peso de cimento asfáltico).
Medição de emissões de VOCs (compostos orgânicos voláteis) e câmera térmica com gradiente de temperaturas..
Economia de combustível na usinagem
A redução de temperatura
de usinagem do concreto asfáltico em 40°C permitiu uma economia de combustível
superior a 35%. Isto traz economia para o proprietário da usina de asfalto,
reduzindo custos operacionais. No quesito ambiental, o menor consumo significa
menos queima de combustível fóssil e grande redução na emissão de CO2 na
atmosfera. Em tempos de extremos climáticos em nosso planeta, a descarbonização
na pavimentação passa também pela adoção das misturas asfálticas mornas.
A chaminé de saída do filtro da usina de asfalto ao fundo emitindo apenas vapor d´água (fumaça branca) enquanto um técnico mede a temperatura de saída do concreto asfáltico.
Descarregamento em obra sem emissões de fumaças tóxicas, com controle de temperatura através do termômetro..
Aplicação impecável com equipe enxuta
Da usina de asfalto para a
obra, a primeira impressão observada é o trabalho impecável que os uruguaios
conseguem executar com poucos trabalhadores. Na vibroacabadora de asfalto é
comum ver no Brasil equipes com inúmeros rasteleiros, mexendo e remexendo no
concreto asfático, muitas vezes sem a menor necessidade. Nesta obra no Uruguai
havia apenas um auxiliar ao operador que ajusta a mesa compactadora e um
rasteleiro de cada lado do equipamento, onde as intervenções manuais foram
poucas vezes necessárias durante a execução.
A vibroacabadora utilizada
nesta obra é de alta qualidade, com aquecimento elétrico da mesa compactadora,
o que garante um aquecimento homogêneo em toda a largura de pavimentação. No
Brasil ainda há um grande predomínio das vibroacabadoras com aquecimento a gás
através de pontos de chama para aquecimento direto das chapas alisadoras, sendo
necessário ter um botijão de gás no equipamento que recebe concreto asfáltico
em alta temperatura. Além do perigo há também a questão da falta de
homogeneidade no aquecimento, principalmente no início dos trabalhos e em
períodos frios do ano. É comum ver falhas no aquecimento no caso do uso de
extensões mecânicas na mesa compactadora com aquecimento a gás.
A nível mundial está
praticamente extinto o uso de tal configuração nas pavimentadoras de asfalto, o
Brasil segue sendo um dos últimos países que ainda utiliza em larga escala e em
todos os tipos de obras, de pequenas ruas municipais até rodovias
concessionadas de alto tráfego.
Concreto asfáltico com temperatura morna sem emissões visíveis, uso de vibroacabadora com aquecimento elétrico da mesa compactadora e poucas intervenções manuais na aplicação.
Equipe pequena e trabalho impecável na aplicação em pista.
Superfície após as primeiras passadas do rolo duplo liso vibratório.
Após as passadas do rolo vibratório, entra o rolo de pneus para finalizar a compactação e proporcionar um bom acabamento superficial.
Finalização da compactação de qualidade com consistência homogênea.
Utilização de rolos compactadores de qualidade
Na maioria das obras pelo
Brasil há um grande descuido quanto aos rolos compactadores utilizados. Muitas
vezes são utilizados rolos improvisados, com adaptações grosseiras de rolos de compactação
de solos com cilindro único para permitir a compactação asfáltica. Essas
adaptações não são adequadas, pois os rolos compactadores de solos possuem
maior amplitude (altura alcançada pelo cilindro em relação ao solo durante a
vibração) e menor frequência (quantidade de ciclos por segundo) em comparação
aos rolos vibratórios de duplo tambor liso vibratório projetados para
compactação asfáltica. Amplitude e frequência inadequada podem prejudicar
bastante a qualidade e acabamento final.
A obra no Uruguai apresenta um bom exemplo
desde a sequência de passadas dos rolos. Inicialmente é utilizado um rolo duplo
vibratório, conhecido também como rolo tandem. O rolo de pneus entra
posteriormente. No Brasil é muito comum utilizar a sequência ao contrário,
entrando o rolo de pneus e posteriormente o rolo duplo liso vibratório, o que é
um erro. Já tivemos postagem aqui no Blog sobre sequência correta e boas
práticas de compactação asfáltica.
Mesmo no caso do uso
correto dos rolos, alguns opcionais que auxiliam a alcançar um bom resultado
final praticamente não são utilizados no Brasil. Nesta obra visitada no Uruguai
o rolo duplo liso vibratório apresentava um disco de corte na lateral. Este
disco é acionado hidraulicamente e executa um corte nas bordas de compactação,
deixando uma superfície inclinada e regular que favorece a boa aderência com a
camada asfáltica que será aplicada posteriormente na faixa ao lado. Já o rolo
de pneus estava equipado com uma lona ao redor dos pneus, o que ajuda a manter
temperatura adequada e evita que o asfalto aquecido seja aderido aos pneus, favorecendo
um bom acabamento superficial final.
Sequência de compactação com rolo duplo liso vibratório (rolo tandem) e o rolo de pneus ao fundo.
Rolos compactadores equipados com disco de corte no modelo de duplo cilindro liso vibratório e lonas para manter temperatura no rolo de pneus.
Disco de corte lateral favorece uma emenda de maior qualidade.
Rolo pneumático com lona cobrindo os pneus, visando manter maior temperatura e favorecer um bom acabamento superficial..
Controle de passadas e utilização de densímetro
Raramente encontrado em
obras brasileiras, o densímetro não-nuclear é uma ótima ferramenta para
controle de compactação. Fácil de transportador e manusear, após a calibração o
densímetro informa o grau de compactação muito próximo do valor real sem
necessidade de retirada de amostras. Assim é possível verificar o número de
passadas necessárias para alcançar o grau de compactação desejado. Um erro
comum nas obras do Brasil é passar um número muito maior do que o necessário
para “garantir” a compactação, sendo que passadas em excesso pode causar efeito
contrário e gerar desagregação dos materiais, além do surgimento de trincas e
fissuras.
No caso específico desta
obra, por estar utilizando o aditivo surfactante para misturas mornas, houve
uma redução no número de passadas necessárias. Com uma espessura de 8
centímetros a camada asfáltica precisou de apenas 4 “fechas” (ida e volta do
rolo tandem e do rolo de pneus) para alcançar grau de compactação próximo de
100%.
Utilização do densímetro após as primeiras passadas dos rolos compactadores.
Calibração do densímetro e medição conforme aumento do número de passadas dos rolos.
Tela do densímetro mostrando o resultado medido de 99,2% de grau de compactação da camada asfáltica após 4 fechas (ida e volta) dos rolos compactadores.
Compactação finalizada resultando em uma pavimentação de alta qualidade.
.
Próximo passo: uso de RAP na usinagem de novas misturas asfálticas
Na agenda uruguaia de
“asfaltos sostenibles” (asfaltos sustentáveis) está previsto um início do uso
do material asfáltico reciclado, o RAP. Por ser uma indústria relativa pequena
quando comparada a países de maior população e extensão territorial, o Uruguai
ainda não havia iniciado processos para reutilização do material asfáltico que
estava sendo fresado de pavimentos envelhecidos pelo fato de que ainda não haviam
enormes depósitos de RAP como ocorre no Brasil.
Pelo fato de que
praticamente todas as usinas de asfalto existentes no Uruguai são de
fabricantes brasileiros, a tendência é que o reuso do RAP seja em dosagem ao
redor de 20% na mistura e com adição direta ao misturador da usina. Aqui no
blog tivemos já algumas postagens sobre a melhor forma de reaproveitamento de
RAP (como neste texto de janeiro de 2024). Por se tratar de usinas de
asfalto móveis sem aquecimento indireto do RAP com o material entrando ao
misturador, tecnicamente a melhor solução é em combinação com misturas
asfálticas mornas. Esta é a linha técnica que deve ser seguida no país vizinho,
trazendo um grande grau de sustentabilidade e também uma grande economia
aliando alta qualidade na pavimentação com o reaproveitamento do RAP.
O correto uso do RAP com
estudo prévio do material e dosagem em laboratório permite reduzir o consumo do
cimento asfáltico de petróleo, o material mais caro na pavimentação. A redução
no consumo do ligante asfáltico virgem aumenta ainda mais o índice de
sustentabilidade na pavimentação e traz ao mesmo tempo redução de custos.
É possível produzir misturas asfálticas altamente sustentáveis de qualidade ao combinar as misturas mornas com uso de RAP.